Entrevista com Duda Teo - Parte 1

Duda_01

Alguns artistas não apenas criam, eles destroem normas, constroem novos mundos e redefinem o que é possível. Duda Teo é uma delas. Uma travesti (não há tradução literal para outros idiomas), designer, artista e pensadora, ela transformou sua vida em uma ousada declaração artística, que desafia estruturas rígidas e celebra a beleza da transformação. De uma pequena cidade em Santa Catarina ao centro da cena artística e intelectual do Brasil, a jornada de Duda é um testemunho de resiliência, reinvenção e resistência.
 
Através da arte, ela molda sua própria existência, recusando ser confinada por noções ultrapassadas de gênero e identidade. Seu trabalho não é apenas sobre estética, é político, pessoal e profundamente conectado a uma longa história de luta trans. Seja ilustrando, pintando ou criando designs, Duda infunde suas obras com um sentido radical de liberdade. Ela é, em todos os aspectos, uma artista da resistência. Nesta conversa, falamos sobre seu processo criativo, suas influências, o preço da autenticidade e, claro, a eterna busca pela beleza.
 
Monika: Olá, Duda!
Duda: Olá, Monika! Muito obrigada pelo convite e por essa introdução tão sensível e profunda. Quero começar enfatizando o quanto esse seu trabalho tem um papel crucial de construir novas narrativas sobre a população trans fora da violência e da precariedade, de alterar o imaginário coletivo a partir da potência.
Monika: Seu nome, Duda, que significa "dúvida" em espanhol, parece refletir perfeitamente seu processo criativo. Como esse senso de dúvida influenciou a maneira como você aborda seu trabalho? Você acha que é essencial estar sempre em um estado de curiosidade e exploração?
Duda: Meu nome é um presente de minha irmã mais velha, que não sabia dizer meu nome morto logo que nasci. Acho que ela me viu de verdade e tratou de me chamar do que se tornaria meu nome oficial no processo de retificação. Uma das razões que me levou a tornar nome o que antes era um apelido foi, justamente, o caráter da dúvida. Nunca me senti pronta em nenhum aspecto e isso me levou a novas dimensões nas reflexões sobre mim e sobre a política em torno da minha existência em um mundo transfóbico. Me entender como um corpo político e como marco histórico de um grande dilema desse tempo definiu minha forma de pensar e produzir arte.
 
Duda_02
"O Dee Studio foi uma forma de me posicionar a partir
da minha transição de gênero."
 
Hoje, as minhas dúvidas giram muito mais em torno das minhas capacidades técnicas, sobre a estética que norteia meu trabalho e de como criar pontes de diálogo do que a mensagem e a reflexão em si. O ponto central do meu trabalho está posto: criar substância contra o apagamento histórico da população trans, afirmar que sempre existimos, a partir de pesquisas documentais atreladas às obras, e trazer à tona reflexões profundas sobre as feridas que a normatividade gera na sociedade como um todo. A violência é generalizada. A libertação também pode ser.
Monika: Você tem seu próprio estúdio de design chamado Dee. Pode nos contar quais serviços ele oferece e o que torna seu estúdio diferente dos outros na indústria?
Duda: Desde que voltei da Austrália, em 2019, trabalho de forma autônoma e direta com clientes livres de exploração animal direta e que não tenham conexão com política e religião. O Dee Studio foi uma forma de me posicionar a partir da minha transição de gênero. Eu entendi que precisava transformar meus medos em forças narrativas e valor social.
Passei por um processo de reposicionamento pessoal e profissional, reformatação de metodologia de trabalho e a um processo de branding, me expondo abertamente como uma designer trans, das ciências sociais, artista ativista e que vivencia questões sociais contundentes desse tempo.
Desde 2015, atendo um estúdio de design de Melbourne e, nos últimos anos, venho atendendo ONGs de Austin, no Texas, ligadas a questões socioambientais e clientes no Brasil ligados à educação, cultura, saúde alternativa (mercado de CBD), design e ao terceiro setor. Meus serviços giram em torno de branding e visual storytelling.
O diferencial do meu trabalho é uma metodologia própria que estrutura alicerces conceituais, narrativos e estéticos, a partir de uma abordagem profunda e de alto valor social. Tenho sempre como premissa uma experiência profunda que se reflete em excelência estética e elevação discursiva.
Monika: Sua arte está profundamente enraizada em mensagens políticas, práticas livres de crueldade, sustentabilidade ambiental e responsabilidade social. Você busca colaborar com marcas livres de exploração animal e humana. É assim que você quer que sua arte seja percebida, como uma ferramenta para mudança e revolução no mundo?
Duda: Sem dúvida, esse reconhecimento é fundamental para a construção de uma reputação que me dê mais ferramentas para gerar impactos positivos no meu micromundo. O ponto central é criar pontes de diálogo para conversas importantes sobre modelos de mundo e sobre quem, de fato, terá acesso a esse mundo que estamos imaginando.
 
Duda_03
"Questionar heranças culturais e morais
tem sido um dos pontos norteadores da
minha construção como artista."
 
Questionar heranças culturais e morais tem sido um dos pontos norteadores da minha construção como artista e, para isso, é preciso viver e estudar intensamente. Viver para que a realidade siga diante de nossos olhos e nos poros de nossa pele, mas estudar para entender como as mazelas se constroem ao longo do tempo e do espaço.
Mas, no fim, é preciso pensar em linguagem o tempo todo. Não adianta eu entender a estrutura do mundo e não conseguir compartilhar esses saberes. Eu gosto de pensar na minha arte como veículo para outro lugar, para uma transição de consciência.
Monika: Sua infância foi marcada pela confusão e dor de existir em um corpo que a sociedade se recusava a reconhecer como seu. Quando criança, você era viciada em desenhar, você encontrou consolo em criar mundos paralelos, usando a arte como uma fuga da violência, punição e perseguição implacáveis que enfrentava?
Duda: A arte sempre foi meu refúgio. Eu desenhava as identidades que queria viver e o mundo que eu queria ser parte. Fui uma menina minha infância toda. Desenhei compulsivamente por anos, quase sempre, mulheres, figuras femininas, de gênero ambíguo, exuberantes e completamente não normativas. A anarquia de gênero estava posta desde minha primeira memória, de meus primeiros traços.
O desenho acentuou meu lugar de diferenciação. Horas de admiração, horas de repulsa, horas sendo paga para desenhar, horas sendo violentada pelos desenhos que fazia. Meu desenho havia se tornado uma expressão da minha existência.
Quase todo o ensino fundamental e ensino médio, eu passei os recreios na biblioteca desenhando e lendo livros, pois era o único lugar onde eu poderia estar segura nos intervalos das aulas. Nesse processo, foi inevitável refinar meu intelecto e minhas habilidades artísticas.
Monika: Sua transição não foi apenas uma transformação pessoal, mas também um despertar intelectual. Com a orientação de outras pessoas trans que nutriram sua curiosidade e pensamento crítico, você começou uma exploração mais profunda da história trans. Quais perguntas você se viu fazendo ao descobrir as histórias de quem veio antes de você e as lutas que enfrentaram para tornar sua existência possível hoje?
Duda: Eu devo tudo a quem veio antes de mim, pois foi a partir das lutas de nossas transcentrais que, hoje, podemos viver à luz do dia. Minha madrinha trans é uma travesti: a Ariel Lovegood. Nos conhecemos pelo Instagram no tempo em que eu morava na Austrália. Ela em Belo Horizonte e eu em Melbourne.
Eu estava no auge da minha não binariedade, vivendo o gênero fluído de maneira bastante experimental, em completo desacordo com a cisnorma e com poucos entendimentos profundos sobre o que eu estava vivendo. Ela me ajudou a me entender como travesti, como identidade política e ponto de tensão na estrutura binarista de gênero.
Isso se fundiu com o início do meu curso de Ciências Sociais e criou uma nova dimensão no meu entendimento sobre como o mundo está organizado e quem sou eu no meio disso tudo. Comecei a estudar sobre a história de pessoas trans no Brasil, fiz cursos específicos sobre dissidências de gênero e sexualidade, me conectando a pesquisadoras, artistas e pensadores de gênero.
 
Duda_04
"A anarquia de gênero estava posta desde minha
primeira memória, de meus primeiros traços."
 
Todos esses movimentos começaram a se entrelaçar e a criar um tecido moral e reflexivo em mim, me preenchendo de senso de propósito e coragem. Fui tomada de perguntas que se tornaram verdadeiras labaredas em mim: como era a vida dessas pessoas? O que elas tiveram que passar para existir? Quais seus grandes dilemas e barreiras?
Imaginar a grandeza que cada pessoa trans teve que ter ao longo da história me preencheu e segue me preenchendo de gratidão e força.
Monika: Enquanto me preparava para esta entrevista, descobri que você se interessou profundamente em promover o conhecimento sobre Xica Manicongo, a primeira mulher trans atacada pela Inquisição no Brasil. Como sua história não é amplamente conhecida na Europa e nos EUA, o que te atraiu nela e por que você acha importante compartilhar sua história?
Duda: Xica Manicongo é um ícone incomparável para a nossa luta de hoje. Ela carrega marcadores de opressão de gênero, raça e classe, questões que atravessam os grandes dilemas sociais e coloca um ponto inegável sobre a transgeneridade: nós sempre existimos. 
Xica se materializa no perfil das travestis mais perseguidas, violentadas e assassinadas no Brasil, país que mais mata pessoas trans no mundo há 16 anos consecutivos.
Outra questão importante foi estudar as identidades trans do Brasil, especificamente, de olhar para dentro, para o que constitui as especificidades da transgeneridade latina. Você pode ter descendência europeia, mas para os imperialistas europeus e americanos, seremos sempre latinas. Então, por que não olharmos para o nosso próprio território e para a nossa própria história?
Além disso, um olhar anticolonial e anti-imperialista é crucial quando entendemos que os piores episódios da história trans no Brasil têm influência dos EUA, como a ditadura militar e a Operação Tarântula, motivada pelos mesmos princípios bélicos e higienistas.
Monika: Todos sabemos que a jornada para nos tornarmos quem realmente somos frequentemente vem com um preço alto, perdemos amigos, família, empregos, e assim por diante. Eu certamente me identifico com isso. Você passou por um custo semelhante em sua jornada? Qual foi a parte mais difícil do seu processo de transição?
Duda: Eu perdi tudo o que temia perder: meu casamento, minha família, trabalho, amigos, dinheiro e reputação. Meu processo de transição foi permeado por muita violência: psicológica, física, sexual e institucional. Tive problemas com todas as estruturas em que pertenci, incluindo o estado e com serviços públicos.
 
Duda_05
"Eu perdi tudo o que
temia perder."
 
Foi muito difícil reconstruir minha saúde física, mental e financeira, encontrar novas possibilidades de relação com minha família, encontrar coragem para me relacionar novamente e superar a depressão que me acompanhou por anos.
Tudo é um processo, mas as questões tendem a encontrar respostas, na medida em que você se movimenta para mudar a própria vida e se colocar como seu maior projeto.
Monika: Você se lembra da primeira vez que viu uma mulher trans na TV ou conheceu uma na vida real que fez você pensar: "Essa sou eu!"?
Duda: Eu sou cria dos anos 1980, então, não tive muitas referências como um todo. Na mídia, havia a Roberta Close e a Rogéria, e algumas travestis que se apresentavam no programa do Silvio Santos. A regra era a prostituição, o perigo das ruas e a epidemia de HIV como face da transgeneridade. Eu nem cogitava ser trans na época.
Fui me reconhecer como travesti quando outras já estavam aparecendo, como Linn da Quebrada e Liniker, por exemplo. Por mais que tivemos nomes importantes na história de luta trans no Brasil, nossas maiores referências fora da precariedade estão sendo forjadas agora, nas artes, nas universidades, nos poderes público e privado, no mercado de trabalho… a internet nos permitiu contar nossas histórias, nos organizarmos e expormos nossas potencialidades. É um caminho sem volta.

FIM DA PARTE 1

 
Todas as fotos: cortesia de Duda Teo
© 2025 - Monika Kowalska


No comments:

Post a Comment

Search This Blog