Guta Silveira é uma ativista trans brasileira, atriz e autora de dois livros biográficos, Homens Não Choram (1994)
e Transexual: A História de Uma Vida (2005). Nascida e criada como menino, Guta recorda que reconhecia sua
feminilidade desde a primeira infância, quando se divertia usando a maquiagem da mãe e imaginando-se com vestidos.
À medida que crescia, enfrentava dificuldades para compreender sua identidade e encontrar seu lugar no mundo.
Inicialmente, assumiu-se como gay, até perceber que era uma mulher trans. Aos dezesseis anos, foi eleita a
primeira Miss Gay de sua cidade natal, São José do Rio Preto, e, aos dezoito, tornou-se proprietária daquela que
era então a primeira boate gay da cidade, abrindo suas portas para centenas de pessoas. Sua jornada de
autoconhecimento continuou até os vinte e nove anos, quando ingressou em um programa de acompanhamento médico
multidisciplinar que a ajudou a compreender sua identidade e a se preparar para a cirurgia de afirmação de gênero.
Após a cirurgia, realizada em dezembro de 1998, Guta também conseguiu retificar seus documentos oficiais, fazendo
constar seu nome e o sexo feminino, uma conquista que considera um marco importante em sua vida. Sua trajetória
profissional inclui o trabalho ao lado de uma equipe cirúrgica, participações na televisão, a publicação de livros
e atuações nos palcos. Nesta entrevista, Guta fala abertamente sobre sua infância, sua difícil relação com o pai,
suas experiências com a mídia brasileira e os desafios enfrentados pelas mulheres trans na busca por aceitação e
respeito. Ela também compartilha suas opiniões sobre direitos humanos, participação política, amor, moda e a
importância da autoaceitação. Embora não se identifique com o modelo tradicional de ativismo, baseado na
participação em manifestações e no levantamento de bandeiras, Guta acredita que as pessoas trans podem contribuir
para todas as áreas da sociedade e jamais devem ser definidas exclusivamente por sua identidade de gênero. Por
meio de seus livros, de seu trabalho como atriz e de suas experiências pessoais, ela espera incentivar outras
mulheres trans a se aceitarem, defenderem seus ideais e encontrarem a felicidade sem se sentirem obrigadas a
corresponder a padrões impossíveis de perfeição.
Monika: Hoje eu tenho a honra e o prazer de entrevistar Guta Silveira, uma ativista brasileira transgênera
inspiradora, atriz e autora de dois livros biográficos: “Homens Não Choram" (1994) e "Transexual: A História de
Uma Vida" (2005). Olá, Guta!
Guta: Oi, Monika! Olá, meninas!
Monika: Você poderia falar um pouco de você mesma?
Guta: Minha história não foge muito do que acontece com outras meninas transexuais. Nasci com corpinho de menino e
assim fui criada. Porém, aos 3 anos eu ia ao clube com a família e sempre frequentava o banheiro feminino com minha
mãe e, para mim, aquilo era normal, fazia parte do meu universo. Um dia fui ao banheiro masculino e fiquei
deslumbrada com o que vi. Homens lindos que me provocaram algo, porém, naquela idade, eu não sabia o que era. Cresci
me sentindo diferente dos coleguinhas de escola e sem saber qual era meu verdadeiro lugar. Eu adorava me pintar com a
maquiagem da minha mãe quando ninguém via e fazia cabelos compridos com panos, enrolava lençóis para fazer de conta
que eram vestidos, era muito divertido e prazeroso.
Monika: Quando você começou a compreender seus sentimentos e perceber que era diferente dos outros meninos?
Guta: Aos 9 anos comecei a entender que eu gostava de meninos e conheci outros meninos que também gostavam. Pensei
que havia me encontrado, mas eu também não era igual a eles. Sempre que conversávamos sobre ter relacionamentos,
eles diziam que fariam de “tudo” na hora do sexo; eu já pensava que queria ser somente a mulher. Claro que demorou
muito até termos namorado, relações, etc., mas conversávamos sempre sobre isto. Eu sempre fui apontada por ser mais
chamativa que meus amigos. Eu não percebia, mas era mais feminina e, com o passar do tempo, fui tendo uma conotação
de gay afetado, pelas minhas roupas, meu jeito mais feminino e até mesmo pela recusa de ir para a cama tão nova.
| Courtesy of Guta Silveira. |
Monika: Como sua família reagiu à sua feminilidade e quando você se assumiu pela primeira vez?
Guta: Aos 13 anos fui pressionada pelo meu pai, que se dizia desconfiado de minha condição sexual. Como nada se
sabia de fato sobre a transexualidade, eu então assumi ser gay. Foi um marco, pois tive que recomeçar a construção
de uma posição na família e na sociedade, mas não foi ruim.
Monika: Como foram suas primeiras experiências amorosas e como você começou a frequentar a comunidade gay local?
Guta: Aos 14 anos tive meu primeiro namorado e fui muito feliz porque ele me tratava como eu gostava: ele era o
homem e eu, a menina do relacionamento. Aos 16 anos eu fui eleita a primeira Miss Gay da minha cidade, São José do
Rio Preto, e ganhei certa notoriedade, porém perdi o namorado (rsrs). Sempre fui muito autêntica e por isso sempre
conquistei a amizade e o carinho das pessoas.
Aos 18 anos me tornei a proprietária daquela que foi a primeira boate gay da minha cidade. Foram 5 anos de sucesso
e, mais uma vez, eu abria as portas para centenas de pessoas que, de alguma forma, passaram a ver a homossexualidade
com mais respeito, mas eu ainda não me sentia completa; faltava algo. Então comecei a tomar hormônios e me senti
bem, mas comecei a namorar um rapaz e ele me pediu para parar. Como naquela época eu não me amava o suficiente e
dependia do amor de outra pessoa, eu fiz o que ele queria. Fomos praticamente casados e ele me fazia feliz porque
também não era “passivo”, fazia sempre a parte do homem. Um dia tentamos mudar as coisas e ele me deixou
“penetrar”, mas aquilo não foi bom para mim nem para ele. Depois, nunca mais eu quis tentar; não era do meu
íntimo ser “homem”.
Monika: Como a sua jornada pessoal te levou a buscar tratamento médico?
Depois que rompemos, eu voltei a tomar hormônios e mais uma vez fiquei feliz de verdade, então não parei mais.
Escrevi meu primeiro livro, comecei a trabalhar com shows de transformismo e descobri aí uma forma de poder ficar
mais perto da aparência feminina sem que ninguém me cobrasse, especialmente meu pai, pois eu mantinha aquela
aparência pelo trabalho. Tive vários namorados, mas ainda me faltava algo.
Quando eu estava com 29 anos, o Hospital de Base aqui de São José do Rio Preto começou a trabalhar nas pesquisas
sobre transexualidade e eu entrei no grupo com mais duas amigas. Por quase dois anos fui acompanhada pela equipe
multidisciplinar que envolvia psiquiatra, psicólogo, endocrinologista, urologista, assistente social e uma
advogada. Nesta época eu me encontrei de fato, pois percebi que não era gay nem travesti. Eu sempre fui
transexual sem saber disso. Fui diagnosticada como transexual primária, que nasce transexual, e assim fui
indicada para cirurgia, que se deu sem nenhum problema. Correu tudo bem e a recuperação foi muito tranquila, pois,
como fui operada num hospital, tive toda a assistência necessária para não ter problemas. Fui operada no dia 18 de
dezembro de 1998 e, de lá para cá, me tornei uma pessoa muito melhor porque passei a sentir e viver a minha
realidade de mulher transexual por completo.
Monika: Qual a sua visão geral de histórias e personagens trans que têm sido mostrados na mídia brasileira?
Guta: Aqui no Brasil as pessoas são muito oportunistas e dão mais valor à exposição gratuita do que à chance
de falar sobre transexualidade de forma aberta e real. É uma pena, mas poucas transexuais foram levadas a sério,
até porque a mídia é tendenciosa e, para eles, é tudo a mesma coisa. Gay, travesti, transexual MtF ou FtM, eles sempre veem como desvio sexual e profissionais do sexo. Tive minha
época de ser muito entrevistada e quase consegui mostrar que não é assim, mas, como eu disse, a mídia não se
interessa pela verdade e, com isso, as meninas transexuais hoje só querem aparecer na TV, mesmo que como prostitutas.
Isso é uma pena…
| Courtesy of Guta Silveira. |
Monika: Você é uma das primeiras mulheres trans a mudar a certidão de nascimento no Brasil …
Guta: Creio que, a mudar totalmente a documentação, eu sou a única. Um ano após a cirurgia, um advogado me procurou
e ofereceu seu serviço gratuitamente e, em oito meses, eu já estava com tudo pronto. A partir da certidão de
nascimento, em todos os meus documentos eu sou Maria Augusta Silveira, sexo feminino. Isso não acontece com todas
as transexuais que conheço; algumas conseguem o nome, mas não conseguem a denominação sexual e vice-versa.
Monika: Além disso, você é uma das primeiras “filhas” do Doutor Cury, que é o cirurgião de maior expressão no
Brasil dentre aqueles que realizam cirurgias de redesignação sexual. Do que você melhor lembra do tempo que
esteve em contato com ele?
Guta: Depois da cirurgia eu trabalhei para ele por vários anos e o admirava muito. Nós viajamos pelo Brasil junto com
os outros membros da equipe e demos muitas palestras. Éramos uma equipe muito bem instruída na causa de ajudar as
transexuais que desejavam a cirurgia de redesignação sexual e, por muito tempo, frequentamos vários canais de TV e
tínhamos uma ótima convivência.
Monika: O que mudou sua relação com o Dr. Cury?
Guta: Houve um dia em que fui convidada para um programa de TV em que ele, o Dr. Cury, não foi convidado. Como
cirurgião, veio o Dr. Jalma Jurado e foi aí que tudo mudou na minha história. Eu soube que, no dia da minha cirurgia,
viria um médico expert de fora para ensinar a técnica para o Dr. Cury, só não sabia que quem fez toda a cirurgia
foi o Dr. Jalma Jurado e não o Cury. Então, nesse dia, nos bastidores da TV, o Dr. Jalma me contou toda a verdade.
Tive uma surpresa muito grande e ruim. Fiquei me lembrando de quantas vezes eu afirmei que o Cury era meu médico,
quantas pessoas eu induzi a operarem com ele, afinal, eu estava bem e a cirurgia, perfeita, etc. Só então eu
percebi que ele havia me usado, pois foi ele quem me deu emprego na sua clínica para ser chamariz de outras transexuais
para se operarem com ele. Na época em que fiquei sabendo de tudo, eu já não trabalhava mais para ele, mas morava
numa casa alugada por ele e então ele me mandou sair da casa, chegando mesmo a cortar água e luz, o que não precisava
ter sido feito, pois eu já havia decidido sair por conta própria. Mas creio que eu precisava dessa atitude dele
para poder acreditar nesse “novo” Dr. Cury que eu não conhecia. Hoje dou graças a Deus por ter sido operada pelo Dr.
Jalma Jurado.
Monika: Naquela etapa da sua transição havia alguma pessoa trans que você seguia como exemplo?
Guta: Havia a Roberta Close, mas ela deu algumas entrevistas desencontradas e não sabia definir sua sexualidade,
então ela ficou mais como exemplo de beleza. Sobre a transexualidade mesmo, eu aprendi na internet, com os médicos
do grupo, lendo livros sobre o assunto, assisti a filmes, como “Jogo perigoso”. Enfim, foi mais por esforço meu que
aprendi sobre a transexualidade.
| Courtesy of Guta Silveira. |
Monika: Qual foi a coisa mais difícil na revelação da sua transexualidade?
Guta: A reação do meu pai. Desse dia em diante, quando relatei ser transexual e que estava fazendo o tratamento
para saber se poderia ser operada, ele brigou muito comigo e então rompemos definitivamente. Hoje não nos falamos,
mas isso não me afeta mais. Preciso de pessoas que apreciem a minha felicidade e não das que só querem que eu as
faça felizes.
Monika: Meninas trans estão sujeitas ao dificílimo teste de “passarem” ou não como mulheres. Você é uma linda
mulher, mas quais conselhos daria às meninas com medo de não “passarem”?
Guta: Que não tenham medo. Que não queiram ser perfeitas, pois ninguém é. As mulheres biológicas não são todas
perfeitas nem bonitas, assim também nós, mulheres transexuais. Nós devemos buscar nossa felicidade, mas, se ela
depende da aparência, então devemos ter paciência, pois os hormônios indicados pelos médicos vão fazer o efeito
desejado. Já no caso de serem indicadas ou não para a cirurgia, isso é assunto para os médicos e é muito
importante aceitar o que eles concluírem sobre cada uma.
FIM DA PARTE 1
Todas as fotos: cortesia de Guta Silveira.
© 2014 - Monika Kowalska
Conheço essa mulher, e a admiro. E essa entrevista foi muito bem feita. Uma abordagem ótima. Parabéns à entrevistadora e entrevistada.
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