Entrevista com Guta Silveira


Monika: Hoje eu tenho a honra e o prazer de entrevistar Guta Silveira, uma ativista brasileira transgênera inspiradora, atriz e autora de dois livros biográficos: “Homens Não Choram" (1994) e "Transexual A História de Uma Vida" (2005). Olá Guta!
Guta: Oi Monika! Olá meninas!
Monika: Você poderia falar um pouco de você mesma?
Guta: Minha história não foje muito do que acontece com outras meninas transexuais. Nasci com corpinho de menino e assim fui criada. Porém aos 3 anos eu ía ao clube com a família e sempre frequentava o banheiro feminino com minha mãe e para mim aquilo era normal, fazia parte do meu universo.
Um dia fui ao banheiro masculino e fiquei deslumbrada com o que vi. Homens lindos que me provocaram algo porém naquela idade eu não sabia o que era. Cresci me sentindo diferente dos coleguinhas de escola e sem saber qual meu verdadeiro lugar. Eu adorava me pintar com a maquiagem da minha mãe quando ninguém via e fazia cabelos compridos com panos, enrolava leçois para fazer de conta que eram vestidos, era muito divertido e prazeroso.
Aos 9 anos comecei a entender que eu gostava de meninos e conheci outros meninos que também gostavam. Pensei que haiva me encontrado mas eu também não era igual a eles. Sempre que conversavamos sobre ter relacionamentos, eles diziam que fariam de “tudo” na hora do sexo, eu já pensava que queria ser somente a mulher. Claro que demorou muito até termos namorado, relações, etc, mas conversavamos sempre sobre isto. Eu smpre fui apontada por ser mais chamativa que meus amigos. Eu não percebia, mas era mais feminina e com o passar do tempo fui tendo uma conotação de gay afetado; pelas minhas roupas, meu jeito mais feminino e até mesmo pela recusa de ir para cama tão nova.

Courtesy of Guta Silveira.

Aos 13 anos fui pressionada pelo meu pai que se dizia desconfiado de minha condição sexual, como nada se sabia de fato sobre a transexualidade eu então assumi ser gay. Foi um marco pois tive que recomeçar a construção de uma posição na família e na sociedade mas não foi ruim.
Aos 14 anos tive meu primeiro namorado e fui muito feliz porque ele me tratava como eu gostva, ele era o homem e eu a menina do relacionamento. Aos 16 anos eu fui eleita a primeira Miss Gay da minha cidade, São José do Rio Preto, e ganhei certa notoriedade, porém perdi o namorado (rsrs). Sempre fui muito autêntica e por isso sempre conquistei a amizade e o carinho das pessoas.
Aos 18 anos me tornei a proprietária daquela que foi a primeira boate gay da minha cidade, foram 5 anos de sucesso e mais uma vez eu abria as portas para centenas de pessoas que, de alguma forma, passaram a ver a homossexualidade com mais respeito, mas eu ainda não me sentia completa, faltava algo.
Então comecei a tomar hormônios e me senti bem, mas comecei a namorar um rapaz e ele me pediu para parar, como naquela época eu não me amava o sufuciente e dependia do amor de outra pessoa eu fiz o que ele queria. Fomos praticamente casados e ele me fazia feliz porque também não erá “passivo”, fazia sempre a parte do homem. Um dia tentamos mudar as coisas e ele me deixou “penetrar”, mas aquilo não foi bom para mim e nem para ele. Depois nunca mais eu quis tentar, não era do meu íntimo ser “homem”.
Depois que rompemos eu voltei a tomar hormônios e mais uma vez fiquei feliz de verdade, então não parei mais. Escrevi meu primeiro livro, comecei a trabalhar com shows de tranformismo e descobri aí uma forma de poder ficar mais perto da aparencia feminina sem que ninguém me cobrasse, especialmente meu pai, pois eu mantinha aquela aparecia pelo trabalho. Tive vários namorados mas ainda me faltava algo.
Quando eu etava com 29 anos, o Hospital de Base aqui de São José do Rio Preto começou a trabalhar nas pesquisas sobre transexualidade e eu entrei no grupo com mais duas amigas. Por quase dois anos fui acompanhada pela equipe multidisciplinar que envolvia, psiquiatra, psicólogo, endocrinologista, urologista, assistente social e uma advogada. Nesta época eu me encontrei de fato, pois percebi que não era gay e nem travesti. Eu sempre fui transexual sem saber disso.
Fui diagnostica como transexual primaria, que nasce transexual, e assim fui indicada para cirurgia que se deu sem nenhum problema, correu tudo bem e a recuperação foi muito tranquila pois como fui operada num hospital, tive toda assistência necessaria para não ter problemas. Fui operada no dia 18 de dezembro de 1998 e de lá para cá me tornei uma pessoa muito melhor porque passei a sentir e viver a minha realidade de mulher transexual por completo.
Monika: Qual a sua visão geral de histórias e personagens trans que têm sido mostrados na mídia brasileira?
Guta: Aqui no Brasil as pessoas são muito oportunistas e dão mais valor a exposição gratuita do que para a chance de falar sobre transexualidade de forma aberta e real. É uma pena mas poucas transexuais foram levadas a sério, até porque a mídia é tendenciosa e para eles é tudo a mesma coisa.
Gay, travesti, transexual MtF ou FtM, eles sempre vêem como desvio sexual e profissionais do sexo. Tive minha época de ser muito entrevistada e quase consegui mostrar que não é assim, mas como eu disse, a mídia não se interessa pela verdade e com isso as meninas transexuais hoje só querem aparecer na TV mesmo que como prostitutas. Isso é uma pena…

Courtesy of Guta Silveira.

Monika: Você é uma das primeiras mulheres trans a mudar a certidão de nascimento no Brasil …
Guta: Creio que a mudar totalmente a documentação eu sou a única. Um ano após a cirurgia, um advogado me procurou e ofereceu seu serviço gratuitamente e em oito meses eu já estava com tudo pronto. A partir da certidão de nascimento todos em todos os meus documentos eu sou Maria Augusta Silveira, sexo feminino. Isso não acontece com todas transexuais que conheço; algumas conseguem o nome mas não conseguem a denominação sexal e vice versa.
Monika: Além disso, você é uma das primeiras “filhas” do Doutor Cury, que é o cirurgião de maior expressão no Brasil dentre aqueles que realizam cirurgias de redesignação sexual. Do que você melhor lembra do tempo que esteve em contato com ele?
Guta: Depois da cirurgia eu trabalhei para ele por vários anos e o admirava muito. Nós viajamos o Brasil junto com os outros membros da equipe e demos muitos palestras, eramos uma equipe muito embasada em ajudar na causa das transexuais que desejavam a cirurgia de redesignação sexual e por muito tempo frequentamos váios canais de TV e tinhamos uma ótima convivência.
Porém houve um dia que fui convidade para um programa de TV em que ele, o Dr. Cury não foi convidado, como cirurgião veio o Dr. Jalma Jurado e foi aí que tudo mudou na minha história. Eu soube que no dia da minha cirurgia viria um médico expert de fora para ensinar a tecnica para o Dr. Cury, só não sabia que quem fez toda a cirugia foi o Dr. Jalma Jurado e não o Cury. Então nesse dia, nos bastidores da TV o Dr. Jalma me contou toda a verdade. Tive uma supersa muito grande e ruim. Fiquei me lembrando quantas vezes eu afirmei que o Cury era meu médico, quantas pessoas eu induzi a operarem com ele afinal eu estava bem e a cirurgia perfeita, etc.
Só então eu percebi que ele havia me usada, por ele que me deu emprego na sua clinica, para ser chamariz de outras transexuais para se operarem com ele. Na época em que fiquei sabendo de tudo eu já não trabalhava mais para ele, mas morava numa casa alugada dele e então ele me mandou sair da casa, chegando mesmo a cortar água e luz, o que não precisava ter sido feito pois eu já havia decidido sair por conta propria. Mas creio que eu precisava dessa atitude dele para poder acreditar nesse “novo” Dr. Cury que eu não conhecia. Hoje dou graças a Deus por sido operada pelo Dr. Jalma Jurado.
MMonika: Naquela etapa da sua transição havia alguma pessoa trans que você seguia como exemplo?
Guta: Havia a Roberta Close, mas ela deu algumas entrevistas desencontradas e não sabia definir sua sexualidade então ela ficou mais como exemplo de beleza. Sobre a transexualidade mesmo eu aprendi na internet, com os médicos do grupo, lendo livros sobre o assunto, assisti afilmes, como “Jogo perigoso” enfim, foi mais por esforço meu que aprendi sobre a transexualidade.

Courtesy of Guta Silveira.

Monika: Qual foi a coisa mais difícil na revelação da sua transexualidade?
Guta: A reação do meu pai. Desse dia em diante, quando relatei ser transexual e que estava fazendo o tratamento para saber se poderia ser operada ele brigou muito comigo e então rompemos definitivamente. Hoje não nos falamos mas isso não me afeta mais. Preciso de pessoas que apreciem a minha felicidade e não das que só querem que eu as faça felizes.
Monika: Meninas trans estão sujeitas ao dificílimo teste de “passarem” ou não como mulheres. Você é uma linda mulher, mas quais conselhos daria às meninas com medo de não “passarem”?
Guta: Que não tenham medo. Que não queiram ser perfeitas pois ninguém é. As mulheres biológicas não são todas perfeitas nem bonitas, assim também nós mulheres transexuais. Nós devemos buscar nossa felicidade mas se ela depende da aparência, então devemos ter paciência pois os hormônios indicados pelos médicos vão fazer o efeito desejado. Já no caso de serem indicadas ou não para a cirurgia, isso é assunto para os médicos e é muito importante aceitar o que eles concluirem sobre cada uma.
Monika: O que você pensa sobre a situação atual das mulheres trans na sociedade brasileira?
Guta: Somos respeitadas a medida que nos damos ao respieto. Infelizmente as meninas que alcançam a mídia hoje só querem aparecer. Houve um caso rescente de uma transexual que namorou um famoso jogador de futebol. Ao ser deixada ela foi à mídia e revelou toda a história. Foi horrivel para ela a repercussão pois ele disse que era tudo mentira e que ela era um travesti desesperado para aparecer na mídia. O pior é que isso respinga nas transexuais que não têm esse comportamento. A sociedade brasileira está aberta e pronta para nos receber, mas como mulheres e não dessa forma desastrosa.
Monika: A transgeneridade poderia ser o novo horizonte dos direitos humanos?
Guta: Nunca pensei em dividir as pessoas em categorias para a obtenção de visibilidade ou direitos. Penso que somos todos seres humanos e então devemos todos ter direitos e deveres também. Se cada um cumprir com sua parte sem fazer escandalos, tudo é perfeito nas nossas vidas. Aqui no Brasil existe uma lei chamada Lei Maria da Penha que ampara a mulher brasileira de agressões e eu sendo mulher, porque vou querer outra forma de defesa; entende? Os direitos humanos são para todos sem distinção.
Monika: Você é ativa na política? Participa de alguma campanha relacionada à identidade de gênero? Você acha que mulheres trans podem fazer diferença na política?
Guta: Eu já me candidatei aqui na minha cidade mas independente de ser transexual o fiz como cidadã com o direito de fazê-lo. Nós transexuais temos muito a acrescentar sim, mas não só na política; na educação, nos espotes, na moda, na culinária, na medicina, etc. Não podemos restringir o campo de atuação das pessoas pelos suas condições sexuais. Eu particularmente nunca militei; apenas fazia a minha parte falando o que devia ser falado no momento apropriado. Nunca participei de parada gay nem qualquer coisa do tipo, não sou de levantar bandeiras, sou mais de seguir em frente fazendo sempre o melhor que eu puder.

Courtesy of Guta Silveira.

Monika: Você poderia me contar sobre a importância do amor na sua vida?
Guta: O amor se tornou mais importante quando descobri o amor próprio. Depender do amor afetivo e sexual de outra pessoa nos faz egoístas e assim não percebemos o amor como todo; o amor da família, dos amigos, enfim. Hoje não estou namorando ninguém e não estou fechada ao amor de um homem, mas estou bem sozinha porque me amo e amo melhor as pessoas de um modo geral.
Monika: Você gosta de moda? Que tipo de roupas costuma vestir? Alguma tendência, cor ou design especial de moda que você prefere?
Guta: Eu sou muito livre na escolha de roupas. Sou mais urbana e contemporânea, uso mini saia, amo a cor rosa e adoro as roupas indianas. Não sou muito de tendencias nem de grifes. Gosto e uso aquilo que me agrada.
Monika: Você é autora de dois livros biográficos: Homens Não Choram" (1994) e "Transexual A História de Uma Vida" (2005). Poderia falar um pouquinho deles?
Guta: São obras distintas. O primeiro é um romance que trabalha com vários aspectos da sexualidade dentro de uma história cheia de aventura e amor. Já o segundo é um relato didatico da minha história como pano de fundo que leva o leitor a conhecer a transexualidade de forma efetiva. Também estive em cartaz rescentemente com minha peça “Guta Que Pariu” que é uma comédia onde eu falo sobre tudo o que vivi de uma forma muito engraçada e surpreendente.
Monika: Você está trabalhando em algum projeto novo agora?
Guta: Atualmente estou escrvendo o roteiro de um filme a pedido de um amigo. Estou revisando uma peça tetral de uma amiga e estudando um convite para ser protagonista mais uma vez no teatro. Também estou analisando a possibilidade de aceitar um quadro num programa noturno, um talk show, como consultora, mas desde que eles façam nos formatos corretos.
Monika: O que você recomendaria para todas as meninas trans que lutam contra a disforia de gênero agora?
Guta: Que não lutem. Que se aceitem com ou sem cirurgia. A disforia de genêro não nos faz pior que ninguém e as diferenças vão caindo por terra a cada passo no avanço do autoconhecimento e da manutenção de nossas personalidades. Não somos disfóricas, somos pessoas com alegrias e tristesas como qualquer outra e por isso devemos sempre estar de cabeça erguida e prontas para defender nossos ideais.
Monika: Guta, muito obrigada pela entrevista!
Guta: Eu que agradeço a oportunidade de mostrar um pouquinho do que penso. Beijos a você e a todas as meninas e aos meninos transexuais.

 
All the photos: courtesy of Guta Silveira.
© 2014 - Monika Kowalska

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